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ENTREVISTA BELCHIOR

     O cantor e compositor Belchior esteve no último dia 15 de maio em Campos do Jordão apresentando o show “Auto-retrato”, pelo projeto “Campos das Artes”. Seu último disco, de mesmo nome, foi lançado em 1999 e traz de volta seus maiores sucessos com novos arranjos, em comemoração aos 25 anos de carreira. Confira agora a entrevista que Belchior concedeu ao jornalista Sandro Rodrigues minutos antes do show no Auditório Cláudio Santoro.

Quantas vezes você já se apresentou em Campos do Jordão?

Belchior: Aqui em Campos já deve ser a quarta ou quinta vez que faço show. Eu participei uma vez aqui, nos velhos tempos, em um mesmo festival ao lado de Egberto Gismonti.

Tanto você como o Chico Buarque, Geraldo Vandré e outros, são identificados pelas pessoas com  aquela geração das canções de protesto contra a ditadura militar, principalmente nos anos 70. Com o fim dessa ditadura, como você enquadra a sua música?

Belchior: Na verdade minha música nunca foi tão ligada ao protesto. Minha música continua sendo geracional, da aventura de viver...uma música de fé, de combate, naturalmente, mas também de paixão. A música e a arte, de forma geral, não podem viver às custas de um momento histórico. Ela deve continuar porque deve ser um esforço para expressar a totalidade humana, e não apenas um momento da história.

Então a história e a arte caminham de forma diferente?

Belchior: Nem sempre. A arte nunca é totalmente distinta da realidade, desligada a ponto de não ter nada a ver com o real. Quis dizer que a música de minha geração não se extingue pelo fato, auspicioso até, da ditadura ter acabado. Ela acabou mas a arte continua. E muito melhor ainda, porque quero fazer uma arte da existência da liberdade, e não da ditadura.

Você mantém uma certa unidade, uma regularidade nos temas e na música ao longo de sua carreira. Hoje vemos vários artistas reinventando seu som e tocando em vários formatos diferentes. Essa sua regularidade ainda tem espaço na música nacional?

Belchior: Minha música de um modo geral é muito coerente. Ou seja, tenho um projeto geral de trabalho na música popular em que cada disco é um momento diferente. Isso pode até parecer repetitivo, mas é uma espécie de coerência, é como colocar um tijolo na formação de uma parede. Então eu acho que não preciso mudar de estilo até porque não tenho outro para o qual mudar. Além disso o meu trabalho, como a de minha geração, não está ao sabor dos modismos da música de comunicação, de massa, ou da indústria cultural. Por isso acho que essa coerência interna do trabalho é fundamental para que se possa identificar não somente um estilo mas também uma marca registrada, um caráter no trabalho e na personalidade do artista.

O último disco “Auto-retrato” é uma releitura de suas músicas com diferentes arranjos. Por que você decidiu fazer esse CD?

Belchior: Quando você comemora um aniversário, tocam a música “Parabéns pra você” não é? Então eu resolvi repetir o meu próprio trabalho em comemoração ao meu aniversário de carreira. Ou seja, escolhi aquelas músicas que ficaram mais conhecidas, as mais pedidas do público ao longo desse tempo. E como são canções que eu venho cantando há 25 anos, achei interessante gravá-las com o espírito que elas teriam se fossem feitas hoje. Não adiantaria regravar simplesmente as músicas com os mesmos arranjos anteriores. Eu queria fazer um disco criativo também nesse sentido e reapresentar este trabalho para um público que ainda não as conhecia e que passaria a conhecê-las com novos arranjos.

Como foi a escolha dos arranjadores para esse disco? Nele estão Rogério Duprat, André Abujamra...

Belchior: O que norteou a escolha dessas pessoas foi justamente o espírito da produção. A gente queria produzir um disco exatamente do modo como eu disse, e assim os arranjadores foram escolhidos justamente com o pensamento de se fazer um disco criativo, e que transmitisse o espírito criador de alguns arranjadores da história da música popular desde a Tropicália até agora. O Rogério Duprat sempre significou para mim o supra-sumo da criatividade, do arranjo, e dessa relação da música popular brasileira mais convencional com a mais inventiva. É um músico de grandes idéias, e que para mim esteve no centro, ao lado do Júlio Medaglia e de outros, do movimento tropicalista. E esses artistas ainda são, historicamente, um índice de modernidade da música popular no Brasil.

E sobre o André Abujamra?

Belchior: É a mesma coisa. Eu acho que o André Abujamra, principalmente entre os mais novos, se enquadra entre os músicos e arranjadores mais inventivos da nova geração.

E sobre o apelido de “Bob Dylan brasileiro”? Você não gosta ou nem dá importância?

Belchior: Não, eu fico até honrado. Bem no começo da minha carreira as pessoas me comparavam com o Bob Dylan, que no meu ponto de vista é o maior poeta e cantor da nossa geração. Claro que o meu trabalho, como o de tantos outros companheiros, tem proximidade com o dele, então eu fico muito honrado com essa comparação, não tenho problema algum. Muito ao contrário, se tivesse uma produção suficiente para incentivar isso eu incentivaria.

Site oficial: www.brazilianmusic.com.br/belchior 

    

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